PROSA E VERSO DE BOTECO - UOL Blog


Poemas, causos, crônicas
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    SOBRE O EDITOR

    Caio Martins.

    Produtor gráfico e fotógrafo, foi exilado político e jornalista em Berlim, é colunista do portal político Vote Brasil, colaborador do Jornal ABC Repórter e presta assessoria parlamentar.

    (Todas as imagens e textos têm direitos autorais.)








    Sem memória não há História. Sem História não há identidade. Sem identidade não há liberdade.


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    PROSA E VERSO DE BOTECO
     


    JORGE SADER - FESTA NO BOTECO


    Jorge Cortás Sader Filho, hoje inaugurando gloriosos 68 anos, navegou por muitos mares tranquilos e revoltos, subiu montanhas traiçoeiras e colinas, olhou de frente e peitou perigos... É padrino do Boteco e companheiro incansável nas madrugadas de edição. Todavia, o aventureiro e suas armas cedem ante dois imperativos inadiáveis. Um, o de escrever e escrever de forma simples e cativante, culta e envolvente. Por isso, republicamos RECADO, que consideramos um hino, e que o caracteriza magistralmente. O outro, é saber ser amigo! Leal e discreto, presente e solidário, de comovente generosidade e dedicação. Seu bom humor contagia, porém ante mentira e falsidade, hipocrisia e injustiças, há que contar com sua reação mais forte e indignada. É uma honra e motivo do mais puro orgulho ser, por ele, chamado de amigo. Mais ainda, desfrutar de seus textos que vão do mais singelo romantismo, através do lírico mais pungente, até as mais cortantes arestas do debate político. 

    Parabéns, Jorge Sader! Brindemos  com cachaça de pote, desejando-lhe vida longa e pedindo aos deuses que o protejam, pois que os inspira.


    RECADO
    Jorge Sader*

    (img: cvm - artevida)

    Papel, se alguém perguntar,
    Diga que as coisas vão bem.
    Que ainda posso falar
    O que na cabeça me vem.

    Que a Vida vai passando
    Como é de se esperar.
    E eu sempre teimando
    Insisto no meu lugar.

    Desistir não posso nem devo;
    Não há lugar pra fraqueza
    Se no contorno d’alma o relevo
    Não me mostra tibieza.

    Papel, se alguém perguntar,
    Diga que as coisas vão bem,
    Que ainda posso amar
    As coisas que o mundo tem.

    Diga também, por favor,
    Que embora com a alma ferida
    Ainda sinto o ardor
    Nas veias da minha Vida.

    *Jorge Cortás Sader Filho é escritor.



    - 03h09
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    ÉCOUTE
    Márcia Sanchez Luz*


    A Maurice Béjart (1927-2007), coreógrafo e bailarino francês.

    Certamente, dança hoje entre as estrelas, pelos céus...

      

    (img: maurice bejart by giselle luske)


    Écoute le silence retrouvé
    Parmis des bruits insistants
    Que toujours nous remètent
    À chercher la gloire de l’éxistence.

    Écoute la parole reinseignée
    Par des émotions revenues
    Qui s’addressent à toi
    Quelques fois.

    Écoute l’émotion des bruits
    Presque perdus
    Dans l’immensité
    De ton coeur.

    Écoute les vents du nord
    Et du sud, et de l’est
    Et de l’ouest...

    Ils sont les sons de ton âme !

     

    *Márcia Sanchez Luz é poetisa*

     

    (trecho - music by hector berlioz - dance: jorge donn and suzanne farrell.)



    - 16h50
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    NESTA RUA
    Zenaide Negrão*


    Nesta rua...
     
    Num tempo primeiro
    de primeiros passos
    passo a vida em coloridos
    ladrilhos de pedrinhas de brilhantes.
     
    Num segundo momento
    o tempo do sofrer se faz presente
    e a vida se torna cimentada
    e junto aos brilhantes
    brotam espinhos.
     
    Num último momento do meu tempo
    os brilhantes, o sofrer e os espinhos
    estão todos reunidos
    numa ínica rua
    num único bosque
    numa única vida
    num único coração.
     
    Solidão...

    *Zenaide Negrão é professora e poetisa.


    - 07h16
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    TAGARELANDO
    Aracéli Martins"



    Uma folha de papel em branco é uma tentação se não conseguimos resistir a imprimir-lhe algo, a deixar nela as marcas de nosso açodamento, de nossa vontade de que nos leiam. É isso: de estabelecer contato a qualquer preço, como essas pessoas que não permitem a quem está só num ônibus de longa distância ou avião  ficar quieto com os seus botões. Falar. É preciso falar, se não o outro se sente só, sente-se pouco à vontade, como se alguém propositalmente o ignorasse, como se dissesse sem palavras que o outro não vale nem uma conversa jogada fora, nem o esforço de uma palavrinha.

    Quando era criança, um afinador de pianos me disse que a...hum... deixa pra lá, não vou dizer seu nome, enfim, uma pianista famosa e de temperamento terrível, ao viajar de avião, comprava os dois assentos para não viajar ao lado de ninguém; era a época em que os aviões tinham duas fileiras com duas poltronas; não eram esses caminhões de gado que são hoje em dia. Ao ouvir isso, fiquei horrorizada, pensando na minha ídola, que não falava com ninguém e, de agora em diante, encarnava um perfeito perfil de bruxa.

    Também me lembro de um amigo belga,  recém-chegado ao Brasil, que desceu a Serra do Mar em direção ao litoral. Era a primeira vez que via aquela paisagem de montanhas e quaresmeiras em flor, cachoeiras e o mar à distância. Estava feliz como um europeu nos trópicos, com tanta beleza. Só que o fulano ao seu lado falava, falava, falava dando o nome das árvores da serra, a altitude de São Paulo ( razão de seu clima mais fresquinho, enquanto na praia fazia um calorão). O belga não aguentava mais; olhou para o falante, e disse que ia tirar uma soneca, pois estava muito cansado. Ato contínuo,  acomodou-se virado para a janelinha, semicerrou os olhos e ficou ali quietinho, totalmente a salvo, para apreciar a mata e seus encantos sem explicações e teorias descaradas sobre a topografia.

    Foi uma maravilha. Não ouviu mais nada. Podia ser até que o outro tivesse, ele sim, dormido realmente. O silêncio é uma bênção, um direito de todos. Afinal o ouvido tem bem menos proteção que, por exemplo, os olhos, que podemos fechar. E tapar os ouvidos, além de ridículo, não resolve grande coisa. No silêncio, o estrangeiro começou a lembrar da paisagem de sua terra, tão plana, tão cinzenta a maior parte do ano. Esse Brasil era mesmo uma loucura, um desperdício de cores e estímulos, de sabores, de ritmo. Não era à toa que os brasileiros conversavam tanto, empolgavam-se por qualquer bobagem; pareciam crianças soltas num paraíso.

    O cheiro da serra era único: fresco e perfumado como um amanhecer. A umidade na dose exata deixava no corpo um bem estar diferente. Meu amigo espreguiçou-se e ajeitou melhor o corpo no banco. E deu de cara com o vizinho de poltrona que sorriu e disse: - Já que o senhor acordou, acho que vai gostar de ouvir essa história que aconteceu comigo lá na Serra das Araras.

    É, leitor amigo, mais ou menos como aconteceu agora com você, pois não consegui deixar a página do Word em branco, numa tarde cinzenta em que estava totalmente sem assunto. Mas com uma saudade danada de você...

    * Aracéli Martins é psicoterapeuta.
    (img: -
    blogoteca.com - titeres).



    - 08h58
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    CACHORRO DE MADAME
    Milton Rezende*



    Ser cachorro de madame, nos dias de hoje, se tornou um privilégio.Vivem no colo das dondocas, ganham beijo na boca, são chamados de filhos e ainda são os donos da casa. Foi-se o tempo que cachorro, macho ou fêmea, era tratado com polenta e sobra de comida. Nos mais pulguentos passava-se creolina, enxofre, pólvora e os bichos ainda eram felizes da vida.

    Dormiam ao relento mesmo que a geada fosse tétrica, daquelas de arrebentar o cano da torneira, mas lá estava o animal para ser o melhor amigo do homem e mostrar que cachorro bão entra até em rio que tem piranha, onde jacaré nada de costa e macaco bebe água de canudo.

    O bicho era roliço, pelagem macia, os olhos uma amêndoa e  mostrando que a saúde era de ferro. Banho? Era de mangueira com água fria, arrepiava o pelo ao contrario, sabão de cinzas no corpo inteiro. O bicho se chacoalhava todo, fazendo espumas e a pulgaiada, carrapatos e picão do mato, voavam para todo lados. Lá estavam os bichos secos e limpos, prontos para o que desse e viesse. Berne se tirava com toucinho, uma salmoura com limão galego, um pincelada de piche, o bicho dava uma lambida, franzia os dentes e o alivio era imediato. Veterinário e Petshop, nem pensar. 

    Hoje os cachorros são tratados como filhos, frequentam os Pets, clínicas computadorizadas, usam calcinhas, fitinhas, vestidinhos, pintam as unhas, dormem em caminhas e dizem, seus proprietários, que são cachorros “machos”, desconto dado às fêmeas...

    O latido era assustador, forte, e fazia qualquer caboclo pensar duas vezes ao entrar no quintal da casa sem o consentimento do dono. Comiam de tudo que fosse dado de bom coração, roíam lasca de pneu velho, pedaço de sabão de pedra, “bom brill” e até caco de vidro eram moídos por dentes caninos afiados como punhais. Às vezes a comida dava uma indigestão, e o bicho comia  erva braba do mato, dava umas patinadas no capim, vomitava e já esta curado.

    São verdadeiros bibelôs de madames, um latidinho fanhoso e fino, dormem na mesma cama do casal e, dependendo do grau de afeição, fazem muitos maridos e/ou esposas  irem  dormir na casinha do cachorro no fundo do quintal. São maridos e esposas que não sabem se são cachorros, ou se vão virar cachorro. Pois  chamam-lhes  de filhinho da mamãe e do papai, uma forma carinhosa de tentar a mutação para a espécie, porém insana  para ser incorporado como descendente dos humanos.

    Pais de cachorros são cachorros e cadelas. Portando fica o alerta e evitaremos constrangimentos. A concorrência entre alguns seres humanos e o reino animal é grande. Tem muita gente bacana que conheço que ainda vai dormir no fundo do quintal. Ou só não foi, porque ainda não late, mija em poste levantando a perninha e falta espaço para construir a casinha. As esposas fazem os comentários, debocham, que é melhor ter um cachorro esperto que um marido otário. A gente ouve e a gente escreve. E o marido se “avecha” e vaza sem argumentos. Marido macho que não quer virar cachorro da nó em pingo d’água e ainda puxa as pontas. Quem perde para cachorro vai empatar com quem? 

    Muitos animais já têm o nome de gente, como Suzi, Madona, Charlotte, Nina, Mayla, Elton, Fred, assim o bicho vai se enquadrando aos costumes humano. A tarde cai e é quando começa a chegada dos maridões. Com toda pinta de baba de cachorro, sem ao menos dar aquela descansada sossegado após um dia árduo de trabalho, atiram-se à atividade religiosa do fim do dia.

    Passar a mão na trela dos bichos e desfilarem felizes da vida pelos jardins dos edifícios e suas adjacências, levando o filho da... família para dar umas voltinhas e fazer suas necessidades biológicas. Os gramados e calçadas viram um rastro de merda deixado pelos animas e seus donos, não importa se grudará no sapato do primeiro descuidado que passar e que, com toda certeza, vai chamá-los de tudo, menos de filhos da “Irmã Tereza de Calcutá”.

    Muitos já são herdeiros da família, com testamentos ostentando os pedigrees com o sobrenome das “majestades”. A “genética” dos animais é alterada pela tintura, de rosa-choque a verde-cheguei, daí para azul-piscina, e os bibelôs travestidos de bambi-boiola estão nas ruas e passarelas inocentemente, pela vontade e exibicionismo dos seus donos deslumbrados.

    O importante, para os tais "homo-canis" é não transtornar o cão ao ponto de ser, o dono, enquadrado por maus-tratos pela legislação de proteção aos animais . Uma extravagância de tamanho mau gosto tem de ser configurada como mau-trato pelo fato do animal não possuir biologicamente tendências e necessidades de aparatos que não correspondem às suas origens genéticas.

    Cachorro decente, enfim, é aquele que já começa com nome de respeito: Tiririca, Cinquenta, Faísca, Porva, Foguinho, Fumaça, Dentão, Bimba, Lobo e assim vai. São amigos que têm a raça e garra caninas de quebrar o pau nas ruas com qualquer vira-lata, mesmo muito maiores, e morder qualquer caboclo que lhes passar a mão, ou que venha a fazer graça com o seu dono ou invadir-lhe a casa. Não gostam de frescura e não dão mole para malandro. Esse é o verdadeiro cão macho no quintal. Agem como animal, vivem como animal e têm o respeito e o carinho do seu dono.

    O resto é papo de aranha, cãozinho de madame, cachorrinho boiola, aberrações resultantes da esquizofrenia de mal-amados que gastam, anualmente, milhões para manter a esquisitice.

    E tanta criança passando fome nesse mundão de meu Deus...

     *Milton Rezende é engenheiro.
    (vídeo: presente da clélia helman) 



    - 00h11
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    COMO OUSAS? TUDO O QUE FICOU...
    Milton Martins*


    COMO OUSAS?

    woman3 
    Mas, como chegara aos 70 anos?

    Pois, não foi ontem de manhã que assistiu o surgimento da bossa nova, mais tarde a Jovem Guarda com o ainda  hoje "rei"  Roberto Carlos, já meio monótono? E os namoros, os bailes, essas coisas?

    Tudo passou de repente, embora ainda sentisse o perfume da noite, da alegria dos tempos, alguns acordes ainda chegavam aos seus ouvidos, sabe lá de onde. Do éter? Ora!

    "- Como é bonita a Deyse"  - diziam seus admiradores no colégio, muitos.

    O tempo foi passando e ela se casou. O marido seria guindado tempos depois a um elevado cargo executivo numa multinacional. Sua vida foi muito fácil, muitas viagens ao exterior. Sabia que os executivos da empresa a admiravam. Não poucas vezes flagrou alguns meio boquiabertos a examinando. Aquela morena, de cabelos soltos e olhos verdes...

    Teve três filhos: um professor, de vida simples, mas o mais culto, um engenheiro executivo de multinacional que enriqueceu e um médico que clinicava na Itália. Orgulha-se de dizer de seu filho médico na Itália. Tinha facilidade de ir para lá. Sempre que ia, chegava até Assis e visitava o túmulo de São Francisco. Ficava ali, naquela meia luz, absorvendo as boas vibrações e se emocionando com as pessoas piedosas que ali oravam. Como ela. Saia dali sempre renovada.

    Já pelos seus 40 anos resolveu trabalhar num núcleo de saúde infantil como voluntária, ajudando um médico, pouco mais jovem parecia, com sua barba espessa, bem contornada no rosto. Bonito? Era, reconhecia Deyse.

    Teve muita convivência com ele, pelo menos duas vezes por semana. Por meses. Um dia, enquanto separava remédios entregues, o médico entrou, postou-se ao seu lado e, baixando a cabeça encabulado, disse quase sussurrando:

    "- Dona Deyse, estou apaixonado pela senhora. Eu amo a senhora!"

    Paixão é difícil de não confidenciar. Atônita, conseguiu responder:

    "- Eu também, doutor".

    O médico se aproximou e trocaram um leve beijo, próximo dos lábios. Deyse caiu em si, seu rosto explodiu vermelho, saiu apressada e disse, já no jardim:

    "- Como ousas? Como ousas?"

    Nunca mais voltou ao núcleo assistencial. Pior para as crianças de tão dedicada que era. Hoje, viúva, mirando-se no espelho, pouco ligando para as poucas rugas, estava conservada, lembrando-se de sua vida serena, realizada. Num dado momento, acariciou seu próprio rosto, bem ali onde o médico lhe beijara. Sentira o perfume de sua loção, de novo. Enrubesceu e emocionada, disse alto:

    "- Como ousas?"

    Fugiu do espelho que a encarava com rigor...

    (img:  img: woman01- Christian Coigny  - publicado em 08/09/09)



    TUDO O QUE FICOU...

     
    Mira-se no espelho e vê a realidade nua de seu rosto, já enrugado, cabelos grisalhos, ajeitados. Há muito tirara a barba trabalhada que lhe dava um ar elegante e, sabia, chamava a atenção das mulheres à sua volta.

    Ali, na imagem do espelho, havia um médico envelhecido que não enriqueceu. Afinal, trabalhara para os mais pobres, e por muitos anos num núcleo de assistência infantil. Clínico geral, não saía de sua cabeça uma frase de uma humilde paciente. O tratamento que dispensara, culminando com uma cirurgia complicada, tivera êxito. Ela agradecia a todos os santos, especialmente São Francisco, de quem era devota exaltada.

    Semanas depois da alta, ela voltou ao seu consultório para consulta rotineira e ao sair disse uma frase que talvez tivesse ouvido alhures: "- Doutor, o senhor pertence a uma raça em extinção". E o espelho apenas confirmava isso, do ponto de vista físico...

    Tinha hoje 70 anos. Viúvo havia quatro anos. Sua esposa morrera em seus braços de infarto fulminante. Nada pode ser feito. Essa experiência fora dolorosa, porque salvara tanta gente em momentos semelhantes e não obtivera êxito com sua própria esposa. Essa contradição mexera com sua cabeça, meditara sobre sua espiritualidade, mas as respostas não vinham. Com a profundidade que desejava.

    Seus dois filhos avançaram na vida. Um era médico como ele, cirurgião exímio. O outro advogado também bem sucedido. Este último tivera sérios problemas havia alguns anos o que o fez abandonar a advocacia criminal depois que um bandido o procurou para defendê-lo. Ao ter à sua frente aquela celebridade com ficha criminal medida a metros, decidiu rejeitar o trabalho. O bandido o ameaçara violentamente, obrigando-o a se afastar do trabalho e se esconder por algum tempo.

    Como não poderia deixar de ser nessa idade, também para ele que sempre vivera no limiar da vida e da morte, o tempo também para ele passara. O que restara de sua vida aos 70 anos?

    Recordara de sua infância, de sua juventude sacrificada fazendo trabalhos avulsos e ministrando aulas para ajudar nas despesas da faculdade. Lembrava-se de seu pai, que trabalhava como operário cerca de 12 horas por dia para ajudá-lo e sua mãe que tanto o incentivara, vendendo em sua casa, roupas feitas. E de sua esposa, anos depois, que o encorajara ao trabalho dedicado aos mais carentes com pouco retorno econômico.

    Um drama que efetivamente vivera, parecendo enredo de romance de escritor pouco inspirado. Mas, não havia somente essas lembranças atribuladas. Sem qualquer peso na consciência nunca esquecera a curta  paixão que experimentara alguns anos após a sua formatura, trabalhando num centro de assistência infantil.

    Ali, uma senhora dos seus 40 anos, lindíssima, morena de olhos verdes, prestava trabalho voluntário. Com ela convivera, por meses, duas vezes por semana. Um dia, não se conteve e confessou:

    "- Dona Deyse, estou apaixonado pela senhora. Eu amo a senhora!" Para sua surpresa, ela respondeu: 

    "- Eu também pelo senhor, doutor."

    Aproximou-se então e deu-lhe um leve beijo, próximo dos lábios. A mulher enrubesceu e se retirou apressada. Nunca mais a viu e nem poderia procurá-la por saber de sua conduta e de sua vida social.

    Aquela lembrança, na frente do espelho fora de emoção. Um alento aos seus sacrifícios. Revivera o perfume do rosto daquela mulher que lhe inspirara tanto e que se fora.

    Como o tempo...

    *Milton Martins é advogado.  
    ( img: alekan - by christiancoigny )



    - 15h41
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    A MUSA
    Cícero Fernandes*


    (img: cvm-chris.ricci-vamp98)

     

    As viúvas já são lindas,

    Imagine uma mulher

    Vestida de preto,

    Em leves tecidos.

    Numa linguagem

    onde o sensual diz

    sobre o conteúdo

    que ocupa espaço,

    na silhueta que

    recorta o tecido.

     

    Então com o tecido

    Recortado vou em

    Direção a graça que

    O tempo constrói,

    Todos os sentimentos

    Tomados pelo desejo

    Despertado no olhar

    Posto sobre você,

    Não esperava sair dali

    Tão angustiado na alma,

    No corpo e ainda um espírito

    Querendo ser habitado

    Por musas, por seres inimaginados.

     

    Me vejo numa questão,

    Importa que a solução encontre,

    Uma forma de não assustar o anjo

    que suas asas a conduzam

    Até aqui,

    onde tenho mesmo que saber

    que é um anjo que me faz ver

    um único instante de vida,

    aquele, a compor a beleza estética

    Imagino quanto de ética há ao ver

    A beleza exposta, quanto valerá a pena

    Achar que é sonho e a beliscar.

     

    * Cícero Fernandes é jornalista.

     



    - 01h34
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    A UM DIA DA ETERNIDADE
    Luiz de Miranda


     gaucho

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    (img: cvm - gaucho)

    Para onde vou não há retorno,
    os ventos zunem nas distâncias
    nas lonjuras mais ermas.

    Estou a um dia da eternidade.
    Mas há ainda um ranger de dentes
    das plenas rebeldias.

    Teu amor não vem,
    teu amor vem tarde,
    como a paisagem da janela de um trem
    já não vem.

    Teu amor
    amortece
    na mesa vazia de um bar.

    Esguia e bela,
    somes nos nomes
    que a paixão não traz.

    O que bebo é vinho
    e ventania,
    loucura dos santos,
    que se perderam na procura
    do que nunca tive.

    És bela,
    o desejo é belo,
    e basta...

    Um dia irei além do impossível,
    serei ainda o barco de um só rio.
    A nudez é plena,
    a nudez da água navega
    ...

    Tudo é solitude
    nos descampados da pampa,
    minha lei e minha origem.

    As flores crescem para além
    dos muros da minha cidade,
    liberdade
    em tudo o que arde.

    Serei o que sonhei,
    a mil anos daqui.

    Serei,
    como a pérola
    que vive encantada
    na sua concha,
    no fundo do mar.

    Irei ao mundo,
    como fui um dia
    à escola.

    Só os deuses
    entendem dormir
    entre estrelas,
    e acordar sem elas
    e poder vê-las
    em cada vão da tarde.

    Porto Alegre, noite de 21 de março de 1998.

    (Do livro "Quarteto dos Mistério, Amor e Agonias, 1999.

    Texto completo em http://orbita.starmedia.com/~poetamiranda/poemas.html )



    - 13h26
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    LUIZ DE MIRANDA - FESTA NO BOTECO


    Quando ele aconteceu, aos 06 de abril de 1945, o vento cortante das pampas amainou, a lua comoveu-se, um cão latiu festeiro em roda e um cavalo relinchou e repicou nas ferraduras, no curral... e veio um anjo e deu-lhe espada e lança.  As Musas, nuas, dançaram no orvalho dos pastos: nascia um poeta.

    Gratos por tua existência, comovidos até a medula, nós te saudamos pelos 65 anos de combates e embates, dores e amores, desterros e exílios, pela fidelidade à Poesia nos momentos mais trágicos e nos mais sublimes.

    Obrigado, Poeta. Vida longa, e o abração mais carinhoso da turma do Boteco.



    - 13h19
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    OS PRAZERES DA PÁSCOA
    Caio Martins



    "Carácoles! Como és pascua nos fuimos a comer conejitos..."

     

    Assim falou  meu querido amigo Juan Morcilla, no ano passado. Saí de um almoço de páscoa, agorinha, digno de trogloditas: coelhinho, carneirinho, leitãozinho,boizinho etc. ... Ninguém queria se meter na cozinha, fomos para a churrascaria. Horas depois, chegados à toca, heroicamente decido não dormir e babar no tapete, meu sofá já ocupado. 

     

    Cachaça no meio, estranhos pensamentos ocorrem dentre as volutas da fumaça do cigarro,  enquanto contemplo, bestificado, as pernas da moça que resolveu ficar, sob desculpa de não dirigir bêbada. Perfeitas... até demais. Dedinhos, pezinhos, joelhinhos, coxas terminando numa nano-calcinha bordô ridícula (pedirei-lhe, quando saia do coma agápico, o lacinho azul pouco menor que a peça para lembrar-me deste dia)...

     

    Paro aí, o resto enrolado na leve cortina recém lavada que não instalei e que virou lençol, sobrando-lhe, de fora, um lindo focinho ávido. Vibram, meus extraordinários instintos mais primitivos e atávicos! Uma Citrullus lanatus ou opulenta representante das Cucurbitaceae nas mesmas condições jamais causaria, sob todas ameaças das penas do inferno ou promessas de bênçãos celestiais, tal exaltação...

     

    Impávido, politicamente incorreto nato, contemplo extasiado e satisfeito, farto e lascivo, essa maravilhosa obra de arte da criatividade divina que aterrissou, lânguida e tépida e intrépida, confortável e feliz, no meu peji de elevadíssimas reflexões não traumáticas... Concluo que  esse Deus ressurgido e comemorado - ou o deus, os deuses, fique-se democraticamente à vontade - deve ser, enfaticamente, meu amigo.

     

    Que me perdoem os fundamentalistas alimentares, abstêmios e castos, sou carnívoro. Luxuriosa e exaustivamente carnívoro.

     

    Definitivamente carnívoro...

    (img: paola en el sofá - fabián perez).



    - 17h43
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    A CIDADE
    Pedro Da Ros*


     

     

     

     

     

     










    (img: cvm - lucienne058 - grafite)
     

    Por entre edifícios imponentes
    Fogem as cores do dia.
    O matiz da vida, borrado
    Com os pincéis do poente
    Celeremente esvai-se:
    A luta é impotente.

    Passado o lusco-fusco
    As silhuetas vivificarão.
    As luzes da cidade
    Suas vidas de pedra restaurarão
    Dar-lhes-ão nova alma.

    Efêmera existência...

    Surgirá então o disco
    Brilhante; por entre nuvens
    Os raios de prata
    Transpassarão janelas
    Invadirão as alcovas
    Vencerão luzes
    Convidarão ao romance.

    A noite chega sem pedir
    Todas as luzes e cores
    Vagarosamente têm de ir.
    O concreto exala seus humores,
    Os vidros baços, quase a rir
    Alegram-se, pois impedem ver
    Alguém a chorar, ou a sorrir.

    Cores, luzes, sombras
    Medos, risos, lágrimas
    Escondidos na alma das gentes
    Envolvidos pelo concreto latente
    Aguardando o Amanhã,
    Que já chega ao Nascente!

    *Pedro Da Ros é engenheiro.



    - 13h18
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