FESTA PELO AVESSO Caio Martins
Chegamos! 15.000 visitas em um ano... e o planeta ainda sobrevive!
(img: mapa histats de leitores do Boteco, em 24/02/2010 - 17:01h - geolocalização por IP)
Pois é, minha gente... chegamos ontem, 24 de fevereiro de 2.010 às 17:01h, às quinze mil visitas, em um ano, de nossos leitores excepcionalmente simpáticos e inteligentes, lúcidos e cultos, cujas exigências de qualidade são quase impossíveis de atingir. São, sem sombra de dúvidas o melhor do melhor espalhado pelo planetinha que resiste heroicamente à extinção. Ooopa! Esse não é tema para meter numa comemoração, diriam etiqueteiros... Mas, etiqueta, num boteco, só nas garrafas! O Boteco, evidentemente orgulhoso de sobreviver na "web" no seu primeiro ano com bom nível de visitas e estar presente em vários países, manifesta clara e decididamente não só sua preocupação, mas, e principalmente, a mais enérgica repulsa pela maneira como a Natureza segue sendo massacrada. À ignorância injustificável do passado, sucedeu-se a consciente imbecilidade e estupidez humanas criminosas da atualidade. A voracidade compulsiva não "'tá nem aí" com a extinção de todas as espécies, inclusive a própria. Crimes ambientais devem necessariamente ser considerados hediondos, de lesa-humanidade. A determinação e persistência de uma dúzia de escribas de um blogue despretensioso atingiu vários continentes, ao menos com um leitor aqui, outro acolá. A persistência, coragem e determinação de todos que acreditam ainda ser possível ter elevados níveis de vida preservando todas as formas de vida poderá salvar o planeta. Temos o dom da palavra, há que usá-lo dentre outros meios. Não há mais como transigir. Não nos desculpamos pela festa pelo avesso. Entendemos que, se houver de pedir perdão por algo, será, antecipadamente, aos nossos filhos, aos nossos netos, pela nossa incompetência em cuidar da própria casa, sua herança legítima. Nos próximos 15.000, esperamos ter motivos a comemorar. A todos, forte abraço. Vamo que vamo!
- 10h00
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MISTÉRIOS MINEIROS Milton Rezende*

Quem não tem um pé atrás com os mistérios do além? Principalmente quando se tem a convivência com aqueles mineirinhos nascidos em Minas Gerais, nas bandas de Miraí, a prosa muda de figura. Com assombração, reza brava, simpatia com benzimentos não se discute e não se brinca. A coisa é séria e perde-se até a amizade a qualquer questionamento que leve os mineirinhos estarem de lero-lero. Mas sempre tem o dia da presepada entre o ver e crer que nos deixam na maior enroscada. Tenho um amigo desses que possui um sítio e compro dele ovos de galinha caipira. Quando junto uma dez caixas vazias, as levo para trazer novamente os ovos bem embalados. Recentemente fiz o que sempre faço, porém desta vez deixando as caixas em uma sacola plástica pendurada na maçaneta do apartamento do amigo pelo fato de não tê-lo encontrado. Aproveitando o dia ensolarado, digno de um delicioso chopinho com aquela carninha no palito e a companhia da família aproveito o dia e retorno horas depois. Retorno à minha casa e, a surpresa: as caixas de ovos em cima do sofá. Quase impossível acreditar no que via, e desci até o terceiro andar para conferir. Mas já era tarde demais, o pacote não estava mais na porta. Coloco os neurônios para trabalhar perguntando aos porteiros se haviam retirado um pacote da porta do 302. Vem a negativa e resolvo levar novamente as caixas de ovos e penduro no mesmo lugar. Pìstas absurdas me levavam sempre para uma “amizade do além” que estaria me sacaneando por duvidar-lhes da existência. Dias atrás a porta do meu veiculo já se abrira sozinha e fechara com o carro parado em um semáforo de estacionamento. Parece mentira, mas não é. Nem a marca dos chopes e das caipirinhas foram trocadas por precaução, continuo fiel. A bebida é boa mas quem dirige não bebe e quem bebe não dirige. Porém, a única verdade é que fiz o amigo mineirin ficar de orelhas em pé quando falei do acontecido. Ele, meio desconfiado e assustado, querendo arrumar uma desculpa, mas não tinha desculpa que contornasse a situação, que um filho de bom mineirinho aceitasse de coração. Para piorar ele não achara as caixas de ovos que deixei novamente na porta da casa dele e vem me comunicar. A coisa parecia estar de brincadeira comigo e o amigo pensou até em chamar um padre para benzer o apartamento dele diante das papagaiadas acontecendo, quando acha as caixas de ovos e uma blusa. Meio apavorado levou essa blusa à casa de vários amigos para saber se conheciam o dono, sabiam de quem era. Foi em vão, tentar achar o relaxado ou a cinderela que fosse o legítimo (a) dono (a) do “sapatinho de cristal” . Passados uns vinte dias ele vem na minha casa e trás a dita cuja da blusa e pergunta-me, você conhece essa blusa ? Eu digo: - Conheço, é minha! Ele me olha com uma cara de alívio e me chamando de idiota assombrado, meio que por telepatia. Eu, clareando as idéias, considerei que, talvez, a dita cuja assombração foi que peguei a blusa que estava na porta malas do carro desde o inverno passado, coloquei em uma sacola de supermercado igual à das caixas de ovos e, sem prestar a devida atenção, pendurei a blusa ao invés das caixas. Ou não? E se alguém, ou algo, trocou as coisas... Rezar funciona? Melhor, não! Uai! Se existe ou não, a única verdade é que quanto mais a gente reza, mais assombração aparece. *Milton Rezende é engenheiro. (img: "o fantasma da ópera - divulgação").
- 06h26
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PROCESSO Cícero Fernandes*
(img: cvm - máscara na janela) Dedos tocam as teclas, Teclas impressionam a tela. Na tela é expressa a idéia. Idéias exprimem sentido Na justaposição das letras. Em letras unidas, frases. As frases sintetizam o pensar Que o pensamento exprime Nos elementos da linguagem. A língua estende nas palavras Sentidos que a alma fala Aos corações onde a vida embala. Amor, ódio, verdade, mentira, Alegria, tristeza, o bem, o mal. Vê a mente que semente rega. Contrapondo, vive quem fala. Escreve, lê ou somente escuta O que diz tais verbetes à boca. *Cícero Fernandes é jornalista.
- 18h04
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SALTO QUÂNTICO Pedro Da Ros*
(img: inga nielsen - gate of dawn)
A corrida louca... Leva-nos aos tropeços Para a cova rasa Mas feliz por louca ser Infeliz por pouco ser. Aqui ou alí, não importa Se entras pela porta torta, Ou sais pela estreita fresta, A Vida deixarás em festa!
*Pedro Da Ros é engenheiro.
- 01h41
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PEDRO DA ROS: FESTA NO BOTECO
Em priscas eras, perdidas na memória, aos 14 de fevereiro aparecia no planeta, para gáudio da Humanidade e temor dos deuses, Pedro Da Ros. Engenheiro Elétrico que ainda usa lápis, mas já substituiu, de má vontade, a régua de cálculo pelo computador. A pesquisa científica é uma de suas cachaças... Não tem TV e não usa chinelo de dedo, mas saboreia pinga-de-alambique e uísque de espírito superior. Homenageia honrosamente um bom vinho e louva uma boa feijuca. Viaja o mundo a trabalho e a lazer, outra chacaça. Anda todo dia e ronca toda noite. Protegido das Musas, é poeta e cronista inspirado que ainda não se convenceu plenamente do fato. Os amigos do Boteco, onde tem cadeira cativa, lhe desejam vida longa, Mestre Pedro, e lhe dão o melhor abraço pleno de carinho.
- 01h10
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FRAGMENTOS Zenaide Negrão*

(img: mädchen - fritz eyb)
Um dia, uma menina...
Comum como todas as crianças Sapatos comuns, quase triste, E eu a vi segurando uma boneca. Um dia, uma menina-moça Cheia de sonhos como todas as outras Desabrochando como rosas da primavera, E eu a vi com um ramalhete de flores nos braços. Um dia, uma menina-mulher Olhos triste de quem já entende a vida, Braços perdidos de quem não segura mais nada, Andar cansado de ter arrastado as ilusões... E eu a vi, com um rosário nas mãos. Um dia, sempre mais um dia... Onde está a menina, cadê sua boneca? Onde está a mocinha, onde está seu ramalhete? Da mulher, esconderam o rosário da sua vida... E eu não a vi mais. Somente estilhaços de memória... Recordações passadas, páginas amarelecidas pelo tempo... E então, eu vi um céu muito azul Uma nuvem muito branca No mais longe do horizonte... *Zenaide Negrão é poetisa
- 17h22
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SANTO Aracéli Martins
Em homenagem a Zilda Arns Alguém uma vez disse que o caminho do santo começava pelo passo da humildade. Que, como todo caminho, estava repleto de tentações para desviar quem quisesse trilhá-lo. Primeiro vinha o terrível e ameaçador Ego (melhor grafar ego, bem minúsculo, pra ir logo lhe tirando a força, pra ir desmoralizando essa instância mesquinha). O ego, para os que não sabem, ou ainda são ingênuos, está assim, digamos, entre os primeiros inimigos classificados por muitos místicos, e deve-se combatê-lo sem dó.
Mas um de seus maiores problemas é exatamente ter, quando o julgamos mortinho, a capacidade de ressuscitar disfarçado em coisas que são verdadeiramente o seu oposto, o que levava muitos discípulos do caminho espiritual a castigarem-se duramente com chicotadas ao descobrirem, pasmem, que estavam caindo na terrível cilada de terem orgulho de serem humildes. Quando tinham um mestre mais vivido ou mais sábio, este poderia aconselhar o candidato aos altares a pensar em outras coisas: em fazer o bem, em trabalhar na horta, pois o resultado seria mais prático e benéfico do que ficar paralisado pelo medo de ter um Egão. Nem pensar na possibilidade de um instrutor tarimbado afirmar que sem o monstro não se chega até a esquina, que ele é o agente do qual dependemos pra viver neste mundo caótico.Não, isto estava totalmente fora de questão, pois não pegaria nada bem. Porém, o tempo passou, e parece que a vastíssima maioria das pessoas desistiu da santidade porque, com tanto jejum e provação, se morria muito de tuberculose, sem aproveitar nada da juventude e das coisas boas que a vida oferecia. Mas fazer o bem e cuidar da horta para matar a fome de quem tem e, principalmente, de quem não tem dinheiro, sempre foi visto com simpatia por todos ( por súditos, por fiéis e depois,muito depois, por eleitores ). Porque significava servir-se, mas também servir o próximo, o que dava uma popularidade muito grande à pessoa. Mas havia situações privilegiadíssimas, nas quais voltava-se até a pensar na santidade. Tratava-se desses momentos nos quais alguma coisa especialmente ruim acontecia, como o desabar de um teto, o desmoronar de um barranco que vitimava algumas ou várias pessoas. Aí, o cidadão que oferecesse publicamente a sua ajuda, ganhava muita estima e respeito por ter um bom coração. Mas a estima dependia muito, não só do número de pessoas vitimadas na desdita, mas do número de pessoas que soubessem da ajuda. Também era possível dar ajuda a um templo que, aí, sim, a visibilidade era grande, pois punham o nome do benfeitor no banco ou na parede. Bem junto dos santos, o que, convenhamos, não era pouca coisa. Já pensou, todo domingo as pessoas lerem os nomes de quem faz o bem escrito ali, para sempre ou até o templo cair? Pois templo também cai, não é? Esse caminho acabou tendo muita preferência, pois lembrava bastante aquela idéia de santidade, mas com o lado prático de não exigir tanto da pessoa. Foi também um caminho muito trilhado para apaziguar a consciência e até para ganhar cargos de poder. Isto sem falar na eficácia que tinha em justificar muitas atitudes que seriam difíceis de entender, principalmente relacionadas a aspectos humanos demais dos que estavam nos cargos de poder. Então, este acabou sendo o foco, o objetivo de quem desejava ser amado por todos numa aldeia, ou por multidões na capital. Mas tinha gente que exagerava, pois chegava a querer barrar aqueles que podiam ajudar mais que ela. Argumentava que isso era usurpar funções que estavam sendo muito bem exercidas antes de chegar outras pessoas com tanto aparato pra ajudar. Chegavam a criar situações de verdadeiras saias justas diplomáticas, pois um país torcia o nariz para o outro, e ficava até zangado se parecesse ser algo menos que O Maior Ajudador de Todos. Numa situação dessas, só pedindo a ajuda dos santos de verdade, dos que nunca subiram em palanques, digo, em altares, porque o trabalho era tanto para ajudar a humanidade, que nunca tiveram tempo de buscar notoriedade. *Aracéli Martins é psicoterapeuta. (img: santo tomas de aquino - wiki)
- 13h16
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MALANDRO Jorge Sader*

Branco, jeans, barba curta e com uma cara muito folgada. Não sentou: aboletou-se. - Quem manda na espelunca? - Moço, aqui não se manda, não. Aqui a gente conversa. - E quem vai trazer uma lima-da-pérsia? Ouvi dizer que aqui tem um maluco que prepara no capricho, é famosa. Cadê o homem? - O Venâncio? Veio pra guerra ou veio em paz? - Mas que guerra, rapaz! Macho não confronta macho. Faz acordo. Não desconversa: traz logo minha lima... - Não é igual a do Venâncio. - Vai ficar falando nele? Manda bala! Que apito ele toca? - Ele é sangue bão, escreve. É poeta... - Poeta? É esse! Cadê o homem? Pago uma nota preta para ele rabiscar uns versos... Neste exato momento, adentrava no Boteco (assim mesmo, com maiúscula) um cidadão com ar elástico, magrelão, camisa azul folgada para fora das calças, como quem quer esconder alguma artilharia. - Buenas! Ouvi falar no meu nome... versos por dinheiro... - Venâncio? - É o meu nome. Não vendo poesia. O que o cidadão ‘tá querendo? - Meu compadre, meu irmão... Me recomendaram... Coisa séria: tinha uma mulher linda. De repente, se foi. Aquela, com um verso bonito, volta. Tem que voltar... - Que coisa é essa, rapaz? Já andou manguaçando por aí!? - E não é para tomar? Olha o retrato dela aqui. Não é uma Musa? Mostrou o retrato. Mulher linda, olhos de quem está pedindo amor, boca chamando para um beijo de horas, corpo fantástico... Olhou cuidadosamente, um vinco fundo na testa, um sorrizinho safado escondido. Precisava tomar cautela para não despertar ciúme no sujeito, tinha jeitão de estourado. Seria ruim, trombar com corno furioso. Mas a moça, em sua faceirice, reconheceria, honrada... Favas contadas. - T’aí! Escrevo um poema, sim. Se ela voltar, avisa... Escreveu o poema. Entregou, recebeu uns trocos. Mas, não fez a batida. O outro saiu lendo embabado, sumiu pela multidão noturna. A turma disposta, saído o tranca-ruas, festejou. O poeta vira-lata e malandro voltara para o Boteco, depois de sumir uns tempos com Thália, de olhos famintos de amor, boca de morrer de beijos, corpo de deusa, amante do riso e extremamente volúvel. Fascinada por escritores, poetas, compositores, seresteiros, músicos... e outros seres intangíveis da noite.
*Jorge Sader é escritor. (img: thália - jean marc nattier - 1739)
- 22h37
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